Exurge!

Organizava livros e artigos para consulta e pesquisa, quando encontrei, perdida, entre vários livros, uma pequena antologia dos sermões de Vieira. Sempre admirei-lhe o estilo, a verve, a profusão de imagens e a maestria com que o manejo da língua portuguesa lhe era dado. Vale lembrar que não sou religioso, longe disso, mas são parte do nosso patrimônio cultural e linguístico esses sermões, que lamentavelmente foram quase que banidos dos nossos cursos superiores de Língua Portuguesa…pois é, “oh tempos, oh costumes”!

Destes sermões, um dos que mais me impressionou, desde sempre é o famoso Sermão pelo Bom Sucesso das Armas de Portugal contra as da Holanda, pregado na Igreja de N. Sª. da Ajuda, na Bahia. Naquele tempo, acossada estava a cidade de Salvador, com os barcos da Holanda fundeados na Bahia de Todos os Santos, o ataque, que seria o segundo, era iminente. A população da cidade, aterrorizada, refugiava-se nas igrejas e inúmeras eram as preces e prédicas. Vieira, entre 10 e 11 de maio, diz-se que a voz de Vieira reverberava na nave da igreja hoje demolida.

Destaco e compartilho uma passagem do sermão. Uma vez que hoje, a Holanda da paz e da amizade não representa para nós qualquer ameaça, senão a de mostrar que em um mundo menos desigual, a alegria e a felicidade tornam-se elementos do cotidiano do seu povo. Dizia, então, que não pesa sobre nós a ameaça dos Orange, mas outra, mais grave, cujo macabro trailer foi exibido para todos, como se fosse um macabro jogo de futebol, no domigo de 17 de abril. Naquele domingo, a Câmara dos Deputados reuniu-se para votar a aceitabilidade do processo de impedimento da Exmª. Srª. Presidenta da República do Brasil, Dilma Vana Rousseff. Processo este, cujo rito, desde já discutível, fora previamente analisado por uma Comissão montada pelo presidente da casa, o infame Deputado Eduardo Cunha, réu denunciado de 5 crimes, cuja morosidade para ser apreciado pelo Supremos Tribunal Federal, embora tenha dado entrada em dezembro, arrepia qualquer lógica e bom senso. Naquela comissão, mais da metade dos que votaram pela admissibilidade do processo estavam denunciados pela Operação Lava-jato como beneficiários de propinas, de subornos, de venda de benesses e de emendas parlamentares.

Fora aquela reunião apenas uma prévia do abominável espetáculo assistido com perplexidade pelo mundo inteiro. Nele sucediam-se votos favoráveis ao processo, mas que, paradoxalmente não citavam sequer os termos principais da peça acusatória. Votos proferidos em nome de Deus e da Família, por deputados, mais tarde veio a se descobrir, contumazes frequentadores das luxuosas casas de prostituição de Brasília, pagas, naturalmente com o dinheiro público… Mas o ponto mais baixo da ignomínia estava por vir, um voto foi proferido tendo como homenageado um notório torturador do tempo do regime militar. Em seu desígnio sádico torturou a jovem militante de um grupo de oposição à ditadura, que anos depois, tornou-se Presidenta da República, por duas vezes eleita em pleito democrático. Era comum nas sessões de tortura choques elétricos no íntimo dos prisioneiros, a ameaça, e a concretização dela, de inserção de roedores nas partes íntimas das vítimas. Nesta longa e tenebrosa história, um bebê, de 1 ano e meio fora torturado com choques elétricos diante de sua mãe. É custoso mesmo imaginar tal barbaridade cujo paralelo existe apenas em Auschivitz, Treblinka, Sobibor, Dachau, Sabra e Shatilla, e nas campanhas de limpeza étnica da guerra da Sérvia.

Paira sobre nós todos, uma ameaça. Os fogos e vuvuzelas comemorando a vitória do impeachment, talvez prenunciem tempos difíceis para a nossa jovem democracia. Um sinistro processo de lavagem cerebral, capitaneado por grandes redes de TV e jornais, foi destilando o ódio, o não pensar. Foi produzindo um estupefaciente eletrônico que prende a todos na tela de TV, espalhada nos bares, nos ônibus, nas clínicas e nas salas de jantar. Tamanho dispositivo de propaganda e lavagem cerebral causaria inveja a Joseph Goebbels. Pois bem, a ameaça é de que, capitaneados por um gangster, o vice presidente poderia assumir a Presidência ao cabo do hediondo processo. O seu programa de governo já foi escrito e contempla o que em quatro eleições, sendo que nas duas últimas fora ele o vice-presidente, foi repelido pelos eleitores. E aí, fico com as palavras de Vieira.

“Finjamos, pois (o que até fingido e imaginado faz horror): finjamos que vem a Bahia e o resto do Brasil a mãos dos holandeses; que há de suceder em tal caso? — Entrarão por esta cidade com fúria de vencedores e de hereges; não perdoarão a estado, a sexo nem a idade; com os fios dos mesmos alfanjes medirão a todos; chorarão as mulheres, vendo que não se guarda decoro à sua modéstia; chorarão os velhos, vendo que não se guarda respeito a suas cãs; chorarão os nobres , vendo que não se guarda cortesia à sua qualidade; chorarão os veneráveis sacerdotes, vendo que até as coroas sagradas os não defendem; chorarão finalmente todos, e entre todos mais lastimosamente os inocentes, porque nem a esses perdoará (como em outras ocasiões não perdoou), a desumanidade herética. Sei eu, Senhor, que só por amor aos inocentes dissestes vós alguma hora, que não era bem castigar a Nínive. Mas não sei que tempos, nem que desgraça é essa nossa, que até a mesma inocência vos não abranda. Pois também a vós, Senhor, vos há de alcançar parte do castigo (que é o mais sente a piedade cristã), também a vos há de chegar”.

Levanta-te, Povo Brasileiro! Por que dormes?

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